Mostrando postagens com marcador texto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador texto. Mostrar todas as postagens

domingo, 31 de outubro de 2010

"Vá com calma"...

sábado, 3 de abril de 2010

Parabéns pelo seu dia

pro Inácio

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Borboleta

sábado, 13 de fevereiro de 2010

O Carnaval da Alma


É ter por dentro ecos formidáveis,
batucadas existenciais,
passistas encantadas
realizando a coreografia da saudade.
Ao lado delas, segue um jovem emocionado
por viver e saber-se carioca em profundidade,
identificado com tudo aquilo.
Aquele jovem saiu no bloco da vida e foi para aonde?
É não se agradar do Carnaval concreto,
que tem tudo "demais":
preços,
seguranças,
angústia,
crachás,
barraquinhas,
nudez grosseira
e violência,
vale dizer o oposto do espírito da festa.
É agradar-se como desejo de ser leve e solto,
vagabundo e belo,
e sem tantos deveres ou consciência.
É preferir a alma da festa, ao seu corpo,
embora estupefato diante da beleza de mulheres impossíveis.
É a criação de um território próprio
onde se é rei pelo cansaço de ser plebeu
no território concreto dos homens.
É ainda a ânsia de sair por aí,
sem intenções ou objetivos,
cansado de conhecer, analisar.
Querendo apenas ser e viver.
Sem cogitar.
É não se aproveitar da fantasia
para dizer verdades recalcadas e provocar ofensores.
É sair por aí numa boa e com uma só disposição
- a de nada ter a fazer,
ninguém a quem convencer ou dar satisfações,
a alegria liberta de dispor do próprio tempo
e da própria vontade segundo o que vai acontecendo
e não segundo os planos tensos e contraídos
do "ter que fazer",
"dizer",
"compreender"
ou "realizar".
É ânsia de vôos e alegria.
Necessidade de não cogitar e mergulhar na vida.
Um instante de inconseqüência no meio da trajetória
idiotamente lúcida, tão obscura.
É mandar às favas a ânsia de metafísica,
mera expressão dos medos que moram na mente,
vizinhos dos pensamentos
(não se dão bem, esses vizinhos).
É acordar tranqüilo e emocionado,
certeza de festa.
Só esperança,
só juventude.
Do lado de lá, tanto coração!
Do lado de cá, tanta vontade!
Apenas ser vítima da alma diabólica das festas,
jamais autor ou relator,
organizador ou apreciador.
Vontade de ser passista ou tocador de surdo,
de mergulhar no delírio,
ser mais um,
chutar seriedades e convicções,
deveres e testemunhos.
Vontade de tudo que só farei interiormente.
Dá no mesmo...
Artur Da Távola

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

A impontualidade do amor


Você está sozinho.

Você e a torcida do Flamengo.
Em frente a tevê, devora dois pacotes de Doritos
enquanto espera o telefone tocar.
Bem que podia ser hoje,
bem que podia ser agora, um amor novinho em folha.
Trimmm!
É sua mãe, quem mais poderia ser?
Amor nenhum faz chamadas por telepatia.
Amor não atende com hora marcada.
Ele pode chegar antes do esperado
e encontrar você numa fase galinha,
sem disposição para relacionamentos sérios.
Ele passa batido e você nem aí.
Ou pode chegar tarde demais
e encontrar você desiludido da vida,
desconfiado, cheio de olheiras.
O amor dá meia-volta, volver.
Por que o amor nunca chega na hora certa?
Agora, por exemplo,
que você está de banho tomado e camisa jeans.
Agora que você está empregado,
lavou o carro e está com grana para um cinema.
Agora que você pintou o apartamento,
ganhou um porta-retrato e começou a gostar de jazz.
Agora que você está com o coração às moscas e morrendo de frio.
O amor aparece quando menos se espera
e de onde menos se imagina.
Você passa uma festa inteira hipnotizado por alguém que nem lhe enxerga,
e mal repara em outro alguém que só tem olhos pra você.
Ou então fica arrasado porque não foi pra praia no final de semana.
Toda a sua turma está lá, azarando-se uns aos outros.
Sentindo-se um ET perdido na cidade grande,
você busca refúgio numa locadora de vídeo,
sem prever que ali mesmo, na locadora,
irá encontrar a pessoa que dará sentido a sua vida.
O amor é que nem tesourinha de unhas,
nunca está onde a gente pensa.
O jeito é direcionar o radar para norte, sul, leste e oeste.
Seu amor pode estar no corredor de um supermercado,
pode estar impaciente na fila de um banco,
pode estar pechinchando numa livraria,
pode estar cantarolando sozinho dentro de um carro.
Pode estar aqui mesmo, no computador,
dando o maior mole.
O amor está em todos os lugares,
você que não procura direito.
A primeira lição está dada:
o amor é onipresente.
Agora a segunda:
mas é imprevisível.
Jamais espere ouvir “eu te amo”
num jantar à luz de velas,
no dia dos namorados.
Ou receber flores logo após a primeira transa.
O amor odeia clichês.
Você vai ouvir “eu te amo” numa terça-feira,
às quatro da tarde, depois de uma discussão,
e as flores vão chegar no dia que você tirar carteira de motorista,
depois de aprovado no teste de baliza.
Idealizar é sofrer.
Amar é surpreender.

Martha Medeiros

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Amizade

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Seja dono do seu próprio umbigo

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Ponto

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Voce aprende...

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Testamento de um idoso


quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

NATAL É...





Natal é muito mais que enfeites, presentes, festas, luzes e comemorações...

Natal quer dizer nascimento, vida, crescimento...
E o Natal de Jesus tem um significado muito especial para o Mundo.
Geralmente não se comemora o nascimento de alguém
que morreu há mais de dois milênios,
a menos que esse nascimento tenha algo a nos ensinar.
Assim pensando,
o Natal de Jesus deve ser meditado todos os dias, e vivido da melhor maneira possível.
Se assim é, devemos convir que Natal é muito mais do que
preencher um cheque e fazer uma doação a alguém que necessita dessa ajuda.
É muito mais do que comprar uma cesta básica e entregar a uma família pobre...
É muito mais que a troca de presentes, tão costumeira nessa época.
É muito mais que reunir a família e cantar.
É muito mais que promover o jantar da empresa e
reunir patrões e empregados em torno da mesma mesa.
A verdadeira comemoração do Natal de Jesus
é a vivência de Seus ensinos no dia-a-dia.
É olhar nos olhos daqueles que convivem conosco
e buscar entender, perdoar,
envolver com carinho esses seres humanos
que trilham a mesma estrada que nós.
É se deter diante de uma criança
e prestar atenção no que os seus olhos dizem sem palavras...
É sentir compaixão do mais perverso criminoso,
entendendo que ele é nosso irmão
e que se faz violento porque desconhece a paz.
É preservar e respeitar a natureza que Deus nos concede,
como meio de progresso,
e fazer esforços reais para construir um mundo melhor.
O Natal é para ser vivido nos momentos em que tudo parece sucumbir...
Nas horas de enfermidades,
nas horas em que somos traídos,
que alguém nos calunia,
que os amigos nos abandonam...
Tudo isso pode parecer estranho
e você até pode pensar que essas coisas
não têm nada a ver com o Natal.
No entanto, Jesus só veio à Terra para nos ensinar a viver,
e não para ser lembrado de ano em ano,
com práticas que não refletem maturidade,
nem desejo sincero de aprender com Essa Estrela de primeira grandeza...
Ele viveu o amor a Deus e ao próximo...
Ele viveu o perdão...
Sofreu calúnias, abandono dos amigos, traição, injustiças variadas...
Dedicou Suas horas às almas sedentas de amor
e conhecimento, não importando se eram ricos ou pobres,
justos ou injustos, poderosos ou sem prestígio nenhum.
Sua vida foi o maior exemplo de grandeza e sabedoria.
Por ser sábio,
Jesus jamais estabeleceu qualquer diferença entre os povos,
não criou nenhum templo religioso,
não instituiu rituais nem recomendou práticas exteriores
para adorar a Deus ou como condição para conquistar a felicidade.
Ele falava das verdades que bem conhecia,
das muitas moradas da Casa do Pai,
da necessidade de adorar a Deus em Espírito e Verdade,
e não aqui ou ali, desta ou daquela forma.
Falou que o Reino dos Céus não tem aparências exteriores,
e não é um lugar a que chegaremos um dia,
mas está na intimidade do ser,
para ser conquistado na vivência diária.
E é esse reino de felicidade que precisa ser buscado,
aprendido e vivido nos mínimos detalhes,
em todos os minutos de nossa curta existência...
Bem, Natal é tudo isso...
É vida, e vida abundante...
É caminho e verdade...
É a porta...
É o Bom Pastor...
É o Mestre...
É o maior Amigo de todos nós.
Pense em tudo isso,
e busque viver bem este Natal...

domingo, 20 de dezembro de 2009

O TEMPO PASSA



Com certeza, você já deve ter pensado na ação do tempo.

Se você ainda é muito jovem não deve ter sofrido por isso,
mas se você já tem uma certa idade
já deve ter pensado nas suas experiências de vida,
nas frustrações que enfrentou e naquilo que deixou de fazer.
Isso é natural.
Porém se você tem mais idade,
já teve seus filhos, já se casou,
já perdeu o emprego e arrumou outro,
já descobriu o que consegue fazer dar certo
e como pode errar.
Com certeza,
pensar no tempo e na sua inexorável passagem
pode estar sendo algo assustador,
difícil porque quase sempre as pessoas se culpam
da infelicidade que enfrentaram.
Depois que a vida passa,
todo mundo pode pensar no que deveria ter feito e não fez,
no amor que deveria ter vivido e não viveu,
no curso que deveria ter feito
e largou por motivos que hoje nem se justificam.
Mas já que não mudamos o passado,
devemos olhar com coragem
quais as atitudes no presente que podemos fazer diferente.
Infelizmente,
percebo em meus atendimentos que muita gente
ainda sofre tentando agradar às pessoas.
Claro que sou a favor da gentileza,
do afeto e de relações amorosas
e cuidadosas com as pessoas,
mas mesmo agindo assim,
precisamos nos colocar,
nos amar e perceber o que nos agrada
e o que nos machuca.
Colocar limites é um dos passos mais importantes para alguém ser feliz.
Se você ainda não sabe direito como fazer isso,
tente se dedicar a esse aprendizado.
Aprender a dizer não é tão ou mais importante do que dizer sim.
Porque, dizer não exige de você uma força interna
e uma coerência com tudo o que cerca o seu caminho.
Dizer não deve ser também um exercício de amor e compreensão,
sem ofender e sem magoar.
Porque a vida passa e se você ficar guardando suas impressões
esperando as mudanças externas sem interagir,
sem se colocar corre o risco de se frustrar.
O tempo passa para todas as pessoas e,
nessa passagem,
uma outra atitude importante é permitir as mudanças
e não ter medo dos novos cenários que a vida apresenta.
Os filhos crescem, casam , vão embora,
você se aposenta, muda de emprego,
tem em um momento ou outro que enfrentar uma doença...
Tudo isso é natural, tudo isso faz parte da sua caminhada.
Assim amigo leitor mergulhe no que de fato é importante
e valorize o que de fato tem valor.
Quantos de nós se acham insubstituíveis numa função,
num trabalho, num casamento
e depois descobrem que não são mais?
De novo foi o tempo que passou,
que fez suas alterações, que nos envelheceu.
E assim sendo,
que levemos na face não apenas as rugas
mas as impressões daquilo que a vida causou
e para isso é preciso sempre tentar entender
o que há por trás das atitudes das pessoas,
e das nossas próprias ações.
Para isso você precisa
ter coragem de mergulhar em si mesmo,
coragem de admitir seus erros,
coragem de pedir perdão quando necessário,
coragem de ser você mesmo,
coragem de aprender com o tempo e com suas lições.
Reconhecer a passagem do tempo todos podemos,
reconhecer que mudamos aprendemos,
perdoamos apenas algumas pessoas.
O tempo passa para nos ensinar,
para que tenhamos mais uma vez
nessa escola da vida
a oportunidade de crescer espiritualmente
e viver melhor,
porque a verdadeira espiritualidade
se vê nas atitudes de uma pessoa
que sabe ser alguém do bem,
apesar dos desafios e dos problemas.
Maria Silvia Orlovas


segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Retrocesso à vista



Retrocesso à vista


O FIM DA utopia marxista,
que apostava na derrota do capitalismo,
deu lugar, na América Latina,
ao neopopulismo que,
fazendo-se passar por socialista, explora,
em vez da contradição classe operária versus burguesia,
a oposição entre pobres e ricos.
Se, no caso anterior,
os sindicatos funcionavam como instrumento de organização
e mobilização do operariado para a tomada revolucionária do poder,
agora constituem uma burocracia de neopelegos,
que passaram a ocupar posições estratégicas no aparelho de Estado
e na máquina política.
Assim,
pressionam o governo e os patrões
para que façam pequenas concessões aos trabalhadores,
com a condição de mantê-los quietos,
enquanto eles,
os neopelegos,
enriquecem a se fortalecem politicamente.
A ascensão de Lula à Presidência da República
foi resultado desse jogo e, ao mesmo tempo,
um salto qualitativo para a elite sindicalista.
As consequências disso para a democracia brasileira
podem ser as mais desastrosas,
como procurou mostrar Fernando Henrique Cardoso,
num artigo recente, intitulado
"Para onde vamos?"
O neopopulismo nada tem de revolucionário,
como alardeia Hugo Chávez,
travestido de líder esquerdista,
mas que, na verdade,
se apoia no voto do venezuelano pobre.
Sustentado pelos vultosos rendimentos do petróleo,
mantém programas sociais assistencialistas,
que lhe garantem vasta popularidade.
Aparece,
diante do povão desinformado,
como seu providencial protetor,
que o defende de um lobo mau
chamado Estados Unidos.
Seu verdadeiro projeto
é manter-se indefinidamente no poder e,
para consegui-lo,
fez o Congresso aprovar a reeleição ilimitada.
Lula tentou seguir o mesmo caminho,
mas teve sua pretensão rejeitada numa pesquisa de opinião.
Precavido,
mudou de tática e terminou adotando
a candidatura de Dilma como a solução possível.
Invenção sua,
se eleita, ela
terá que fazer dele seu sucessor em 2014,
e, assim,
caso isso ocorra,
teríamos mais oito anos
de Lula na Presidência da República,
o que somaria, no total,
20 anos de lulismo.
Ou mais, muito mais,
porque pode não parar aí,
já que, àquela altura,
as bases do neopeleguismo
e do neopopulismo
estariam amplamente assentadas em todo o país.
A ameaça é que,
se já agora ele
se rebela contra
a ação fiscalizadora do Tribunal de Contas da União
e pretende calar a imprensa, ou seja,
não admite que ninguém critique
ou cerceie suas decisões de governo,
imaginem o que não fará durante tantos anos no poder.
A história tanto anda para frente
como pode andar para trás.
O propósito de, chegado ao poder,
não sair mais,
faz parte da ideologia petista,
como deixou claro José Dirceu,
em visita a Madri, logo após a posse de Lula,
em 2003, ao afirmar que o projeto deles
era ficar 20 anos no poder.
Sim, porque,
ao contrário dos outros partidos "burgueses",
o partido dito revolucionário vem para salvar o povo
e mudar o rumo da história.
Logo,
não pode se submeter às regras democráticas
da alternância no poder.
Se é verdade que, a esta altura,
o petismo já abriu mão do revolucionarismo,
não admite perder as posições conquistadas.
Lula, muito esperto,
logo compreendeu que o Brasil não é a Venezuela.
Sabe que,
embora tenha maioria no Congresso,
este jamais lhe concederia um terceiro mandato
e muito menos a possibilidade de reeleição ilimitada.
Por isso, adotou a tática de conseguir
um mandato tampão para Dilma,
enquanto,
às carreiras, procura implantar o PAC
e aparecer, diante da nação,
como um presidente empreendedor,
que visa elevar o país à condição de grande potência.
Assim age Chávez
e assim agiu nossa ditadura militar.
A fórmula é sempre aquela:
inimigo dos poderosos e amigo dos pobres,
defensor dos negros e mulatos,
inimigo dos brancos de olhos azuis.
Isso transparece, a todo momento,
em suas declarações e discursos.
Não faz muito tempo,
falando aos catadores de lixo,
criticou os ricos que, deliberadamente,
sujam a cidade para que os lixeiros,
humilhados por eles, a limpem.
É um presidente da República que,
sem qualquer escrúpulo,
faz questão de instigar ressentimentos
e conflitos entre os cidadãos,
jogar uns contra os outros.
Isso no discurso, porque,
de fato,
usa a máquina do Estado
para favorecer grandes empresas
nacionais e estrangeiras.
O artigo de Fernando Henrique Cardoso
chamou atenção para o perigo que o país corre.
Em vez de desautorizá-lo,
os formadores de opinião deveriam preocupar-se
com o interesse maior da sociedade.
É de se esperar, também,
que Serra e Aécio assumam
a responsabilidade que lhes cabe.

Ferreira Gullar - 15 de novembro 2009-Folha de São Paulo


quarta-feira, 25 de novembro de 2009

SAÚDE MENTAL




Fui convidado a fazer uma preleção sobre saúde mental.
Os que me convidaram supuseram que eu,
na qualidade de psicanalista,
deveria ser um especialista no assunto.
E eu também pensei.
Tanto que aceitei.
Mas foi só parar para pensar para me arrepender.
Percebi que nada sabia.
Eu me explico.
Comecei o meu pensamento fazendo uma lista das pessoas que,
do meu ponto de vista,
tiveram uma vida mental rica e excitante,
pessoas cujos livros e obras são alimento para a minha alma.
Nietzsche,
Fernando Pessoa,
Van Gogh,
Wittgenstein,
Cecília Meireles,
Maiakovski.

E logo me assustei.
Nietzsche ficou louco.
Fernando Pessoa era dado à bebida.
Van Gogh matou-se.
Wittgenstein alegrou-se ao saber que iria morrer em breve:
não suportava mais viver com tanta angústia.
Cecília Meireles sofria de uma suave depressão crônica.
Maiakoviski suicidou-se.

Essas eram pessoas lúcidas e profundas
que continuarão a ser pão para os vivos
muito depois de nós termos sido completamente esquecidos.
Mas será que tinham saúde mental?
Saúde mental,
essa condição em que as idéias comportam-se bem,
sempre iguais, previsíveis, sem surpresas,
obedientes ao comando do dever,
todas as coisas nos seus lugares, como soldados em ordem unida,
jamais permitindo que o corpo falte ao trabalho,
ou que faça algo inesperado;
nem é preciso dar uma volta ao mundo num barco a vela,
bastar fazer o que fez a Shirley Valentine
(se ainda não viu, veja o filme)
ou ter um amor proibido ou, mais perigoso que tudo isso,
a coragem de pensar o que nunca pensou.
Pensar é uma coisa muito perigosa...
Não, saúde mental elas não tinham.
Eram lúcidas demais para isso.
Elas sabiam que o mundo é controlado pelos loucos
e idosos de gravata.
Sendo donos do poder,
os loucos passam a ser os protótipos da saúde mental.
Claro que nenhum dos nomes que citei sobreviveria aos testes psicológicos
a que teria de se submeter se fosse pedir emprego numa empresa.
Por outro lado,
nunca ouvi falar de político que tivesse estresse ou depressão.
Andam sempre fortes em passarelas pelas ruas da cidade,
distribuindo sorrisos e certezas.
Sinto que meus pensamentos podem parecer pensamentos de louco
e por isso apresso-me aos devidos esclarecimentos.
Nós somos muito parecidos com computadores.
O funcionamento dos computadores,
como todo mundo sabe,
requer a interação de duas partes.
Uma delas chama-se hardware, literalmente "equipamento duro",
e a outra denomina-se software, "equipamento macio".
O hardware é constituído por todas as coisas sólidas com que o aparelho é feito.
O software é constituído por entidades "espirituais"
- símbolos que formam os programas e são gravados nos disquetes.
Nós também temos um hardware e um software.
O hardware são os nervos do cérebro,
os neurônios, tudo aquilo que compõe o sistema nervoso.
O software é constituído por uma série de programas
que ficam gravados na memória.
Do mesmo jeito como nos computadores,
o que fica na memória são símbolos, entidades levíssimas,
dir-se-ia mesmo "espirituais",
sendo que o programa mais importante é a linguagem.
Um computador pode enlouquecer por defeitos no hardware
ou por defeitos no software.
Nós também.
Quando o nosso hardware fica louco há que se chamar psiquiatras e neurologistas,
que virão com suas poções químicas e bisturis consertar o que se estragou.
Quando o problema está no software,
entretanto, poções e bisturis não funcionam.
Não se conserta um programa com chave de fenda.
Porque o software é feito de símbolos,
somente símbolos podem entrar dentro dele.
Assim,
para se lidar com o software há que se fazer uso dos símbolos.
Por isso, quem trata das perturbações do software humano
nunca se vale de recursos físicos para tal.
Suas ferramentas são palavras,
e eles podem ser poetas,
humoristas, palhaços, escritores, gurus,
amigos e até mesmo psicanalistas.
Acontece, entretanto,
que esse computador que é o corpo humano
tem uma peculiaridade que o diferencia dos outros:
o seu hardware, o corpo, é sensível
às coisas que o seu software produz.
Pois não é isso que acontece conosco?
Ouvimos uma música e choramos.
Lemos os poemas eróticos de Drummond e o corpo fica excitado.
Imagine um aparelho de som.
Imagine que o toca-discos e os acessórios, o hardware,
tenham a capacidade de ouvir a música que ele toca e se comover.
Imagine mais,
que a beleza é tão grande que o hardware
não a comporta e se arrebenta de emoção!
Pois foi isso que aconteceu com aquelas pessoas que citei no princípio:
a música que saía de seu software era tão bonita
que seu hardware não suportou.
Dados esses pressupostos teóricos,
estamos agora em condições de oferecer uma receita que garantirá,
àqueles que a seguirem à risca,
saúde mental até o fim dos seus dias.
Opte por um software modesto.
Evite as coisas belas e comoventes.
A beleza é perigosa para o hardware.
Cuidado com a música.
Brahms e Mahler são especialmente contra-indicados.
Já o rock pode ser tomado à vontade.
Quanto às leituras,
evite aquelas que fazem pensar.
Há uma vasta literatura especializada em impedir o pensamento.
Se há livros do doutor Lair Ribeiro,
por que se arriscar a ler Saramago?
Os jornais têm o mesmo efeito.
Devem ser lidos diariamente.
Como eles publicam diariamente
sempre a mesma coisa com nomes e caras diferentes,
fica garantido que o nosso software pensará sempre coisas iguais.
E, aos domingos, não se esqueça do Silvio Santos e do Gugu Liberato.
Seguindo essa receita você terá uma vida tranqüila,
embora banal.
Mas como você cultivou a insensibilidade,
você não perceberá o quão banal ela é.
E, em vez de ter o fim que tiveram as pessoas que mencionei,
você se aposentará para,
então, realizar os seus sonhos.
Infelizmente, entretanto,
quando chegar tal momento,
você já terá se esquecido de como eles eram.

Autor: Rubem Alves

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

LA MUERTE: UN AMANECER



ELISABETH KÚBLER ROSS

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

A PERDA DO PAI




A perda do pai:
quem sabe vivenciá-la?
Como aceitar mortal e falível aquela pessoa grande,
capaz de conseguir o universo, logo ele,
o provedor, abridor de caminhos
pelos quais começamos a passar medrosos?
A perda do pai é a retirada da rede protetora no momento do salto.
E há que saltar.
É o roubo feito no exato momento
em que estávamos a descobrir o melhor do mundo.
A perda do pai é a entrada no lugar-comum,
é começar a ser igual a todos os que a sofrem,
a ter os mesmos medos, as mesmas frases.
É voltar a se emocionar com o que se desprezava:
datas, pequenas lembranças, objetos,
palavras e até com as manias dele que nos irritavam.
A perda do pai é o começo do balanço da própria vida,
porque, enquanto vivia,
era mais fácil nele descarregar alguns fracassos e culpas.
A perda do pai é o início da significação.
As palavras começam a fazer um estranho e novo sentido.
A perda do pai começa a nos ensinar o valor do tempo:
o que não fizemos,
a visita deixada para depois,
o gosto adiado,
a advertência desdenhada,
o convite abandonado sem resposta,
o interesse desinteressado...tudo isso volta,
massacrante, cobrando-nos o egoísmo.
Nosso primeiro exame de consciência verdadeiro
começa quando o pai morre.
Nosso encontro com a morte inaugura-se com a dele.
Nossa primeira noite sem proteção consciente,
dá-se quando ele já não está.
E nunca somos mais sós que na primeira noite em que já não o temos.
O pai é o mistério enquanto vida e a revelação depois de morto.
Num segundo, entendemos tudo o que,
durante a vida, nele nos parecia uma gruta de mistérios.
Seus objetos ganham vida,
suas comidas preferidas passam a ter mais gosto,
suas frases adquirem o sentido que só o tempo
e a repetição outorgam às coisas.
A perda do pai dói muito!
Isso é tudo.
Para que querer saber por que?
O pai é o eu no outro.
É dois em um,
santíssima dualidade a proclamar o mistério e a glória de existir,
dívida que com ele temos,
sem nunca conseguir pagar,
o que o faz por isso mesmo,
sempre, muito melhor do que nós...

Artur da Távola

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Tolerância




O poder da tolerância capacita você
a ser humilde e ter misericórdia.
Ele o liberta de perguntas
e faz você permanecer em seu autorrespeito.
Com essa atitude, as pessoas ficam contentes
e felizes em sua companhia.
Tolerância torna sua natureza simples e fácil,
independente do que os outros estejam fazendo.
Apenas tenha bons pensamentos para si
e bons votos para os outros.
Não se preocupe com que tipo de sentimento
eles têm por você.
Não seja afetado pelo que
outros pensam sobre você.
Bons sentimentos funcionam definitivamente.

BK Jayanti

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

O Caminho da Vida



"O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza,
porém nos extraviamos.
A cobiça envenenou a alma dos homens...
levantou no mundo as muralhas do ódios...
e tem-nos feito marchar a passo de ganso
para a miséria e morticínios.
Criamos a época da velocidade,
mas nos sentimos enclausurados dentro dela.
A máquina, que produz abundância,
tem-nos deixado em penúria.
Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos;
nossa inteligência, empedernidos e cruéis.
Pensamos em demasia e sentimos bem pouco.
Mais do que de máquinas,
precisamos de humanidade.
Mais do que de inteligência,
precisamos de afeição e doçura.
Sem essas virtudes,
a vida será de violência e tudo será perdido."

Charles Chaplin
"O Último discurso", do filme O Grande Ditador

domingo, 11 de outubro de 2009

Novo Jeito de Amar

Flavio Gikovate

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Mãe é mãe?




Vamos esclarecer alguns pontos sobre mães, ok?
Desconstruir alguns mitos.
Não, não precisa se preocupar.
Não é nada ofensivo, eu também sou mãe...e avó!
Vamos lá:
MÃE É MÃE:
mentira !!!
Mãe foi mãe, mas já faz um tempão!
Agora mãe é um monte de coisas:
é atleta, atriz, é superstar.
Mãe agora é pediatra, psicóloga, motorista.
Também é cozinheira e lavadeira..
Pode ser política, até ditadora, não tem outro jeito.
É...e às vezes também é pai.
Sustenta a casa, toma conta de tudo, está jogando um bolão.
Mãe pode ser irmã:
empresta roupa,
vai a shows de rock pra desespero de algumas filhas,
entra na briga por um namorado.
Mãe é avó (oba, esse é o meu departamento!):
moderníssima, antenadíssima,
não fica mais em cadeira de balanço,
se quiser também namora, trabalha, adora dançar.
Mãe pode ser destaque de escola de samba,
guarda de trânsito,
campeã de aeróbica, mergulhadora.
Só não é santa, a não ser que você acredite em milagres.
Mãe já foi mãe, agora é mãe também.
MÃE É UMA SÓ:
mentira !!!
Sabe por quê?
Claro que sabe!
Quase toda criança tem uma avó que participa,
dá colo, está lá quando é preciso.
De certa forma, tem duas mães.
Tem aquela moça, a babá,
que mima, brinca, cuida.
Uma mãe de reserva, que fica no banco,
mas tem seus dias de titular.
E outras mulheres que prestam uma ajuda valiosa.
Uma médica que salva uma vida,
uma fisioterapeuta que corrige uma deficiência,
uma advogada que liberta um inocente,
todas são um pouco mães.
Até a maga do feminismo, Camille Paglia,
que só conheceu instinto maternal por fotografia,
admitiu uma vez que lecionar
não deixa de ser uma forma de exercer a maternidade.
O certo então, seria dizer:
mãe, todos têm pelo menos uma.
Ser mãe é padecer no paraíso:
mentira!
Que paraíso, cara-pálida?
Paraíso é o Taiti,
paraíso é a Grécia,
é Bora-Bora, onde crianças não entram.
Cara,
estamos falando da vida real,
que é ótima muitas vezes,
e aborrecida outras tantas, vamos combinar.
Quanto a padecer, é bobagem.
Tem coisas muito piores do que acordar de madrugada no inverno
pra amamentar o bebê,
trocar a fralda e fazer arrotar.
Por exemplo?
Ficar de madrugada esperando o filho ou filha adolescente
voltar da festa na casa de um amigo
que você nunca ouviu falar,
num sítio que você não tem a mínima idéia de onde fica.
Aí a barra é pesada, pode crer...
Maternidade é a missão de toda mulher:
mentira !!!
Maternidade não é serviço militar obrigatório,
caramba!
Deus nos deu um útero mas o diabo nos deu poder de escolha.
Como já disse o Vinicius:
filhos, melhor não tê-los,
mas se não tê-los,como sabê-los?
Vinicius era homem e tinha as mesmas dúvidas.
Não tê-los não é o problema,
o problema é descartar essa experiência.
Como eu preferi não deixar nada pendente pra a próxima encarnação,
vivi e estou vivendo tudo o que eu acho que vale a pena
nesta vida mesmo,
que é pequena mas tem bastante espaço.
Mas acredito piamente que uma mulher
pode perfeitamente ser feliz sem filhos,
assim como uma mãe padrão,
dessas que têm umas seis crianças na barra da saia,
pode ser feliz sem nunca ter conhecido Paris,
sem nunca ter mergulhado no Caribe,
sem nunca ter lido um poema de Fernando Pessoa.
É difícil, mas acontece.
Mamãe, eu quero:
verdade!
Você pode não querer ser uma,
mas não conheço ninguém que não queira a sua.
Martha Medeiros